Já dizia o filósofo Sócrates, “a vida sem ciência é uma espécie de morte”. O tempo tratou de consolidar esse pensamento e a cada descoberta damos maior crédito aos nosso cientistas. Fato comprovado numa parceria entre a Universidade de Fortaleza (Unifor) e a Universidade da Califórnia, em Davis, nos Estados Unidos, que reproduziu cabras transgênicas pelo método de microinjeção. Geneticamente modificadas com genes humanos, as cabras serão capazes de produzir um leite mais rico em proteínas, capaz de combater a diarreia infantil, um grave problema, terceira causa de mortalidade em crianças abaixo de dois anos na região do semiárido do Nordeste. O projeto, estimado em R$ 6,5 milhões, é financiado pela Rede de Biotecnologia do Nordeste (Renorbio).
Etapas
A pesquisa cham-se “Desenvolvimento de Imunocompostos no Leite de Caprinos Transgênicos para Prevenção e Tratamento da Diarreia Infantil no Semiárido do Brasil” e consiste em inserir no leite do caprino transgênico uma proteína humana (conhecido como gene humano) que trabalha como um antibiótico natural no tratamento contra à diarreia. Fecundadas in vitro, as cabras tiveram injetadas dentro dos seus embriões o DNA humano nesta primeira etapa.
Na segunda etapa de trabalho há uma série de testes no leite produzido pelo casal de cabras transgênicas, incluindo teste toxicológicos e seus possíveis efeitos – para o bem ou para o mal. Esses exames são necessários para preencher as lacunas necessárias, para a pesquisa avançar e provar os testes clínicos ou em humanos.
A terceira etapa será a inclusão de outros tipos de proteínas humanas nos animais, como a lactoferrina, não apenas em caprinos, mas em bovinos e suínos, de organismos mais próximos aos seres humanos. Após todos os testes, há a fase de aprovação do leite transgênico, tanto para comercialização quanto para o uso em programas sociais do Governo.
O trabalho é complexo, que envolvem muitas etapas, além de demandar alguns anos. “Existem pesquisas de até 15 anos como essa nos EUA, com testes do que funciona e o que não funciona” esclarece Bertolini, que conta com a presença de uma professora visitante, Elizabeth Maga. Colaboradora desde a origem do projeto, Maga é a principal pesquisadora do projeto na Universidade da Califórnia, em Davis (EUA) e trabalha com esse tipo de pesquisa há cerca de 14 anos nos EUA, que inclui também suínos, bovinos, caprinos e outros animais.
foto Unifor Noticias
A equipe, compostas de professores, estudantes (Medicina, Fisioterapia, Farmácia e Enfermagem), graduados, pós-graduados, doutorandos, bolsistas e colaboradores, são um total de 25 pessoas que estão diariamente na Unifor. A pesquisa é desenvolvida há pouco mais de dois anos sediados no Laboratório de Biologia Molecular e do Desenvolvimento, com a Unidade Animal localizado numa fazenda associada ao projeto e pertencente ao Grupo Edson Queiroz. De lá foram provisionadas as matrizes selecionadas para o estudo.
Sonho
Quem explica tudo é um empolgado professor Marcelo Bertolini, coordenador do projeto junto com sua esposa, a também pesquisadora Lucian Bertolini. Um casal com tanta paixão pelo que fazem que se mudaram indefinidamente do frio gostoso de Santa Catarina para uma ensolarada Fortaleza, tudo por conta do trabalho na Unifor. Ele é um veterinário, especializado em fisiologia e reprodução animal, e ela é bióloga molecular, especialista em técnicas com DNA.
Ambos são do programa de doutorado da Rede Nordeste de Biotecnologia (Renorbio) e se mudaram em prol da ciência, mas acima de tudo, em nome da saúde e da vida. “É satisfatório trabalhar num projeto que pretende mudar a saúde das pessoas e que poderá ter um impacto muito grade no combate à diarreia e à subnutrição infantil no semiárido nordestino” afirma a bióloga.
Já o veterinário Bertolini leva o sonho mais adiante e afirma que o resultado final da pesquisa abre a possibilidade de uma cadeia de acontecimentos positivos no Brasil. “Ao produzir um alimento rico em proteínas, fornecemos as crianças uma maior imunidade, gerando uma melhor chance de fazê-la sair da situação de risco, assim promovemos uma melhor condição social, que lhe dá o poder de ser capaz de conquistar seus sonhos e ao final fazer um país mais igualitário”.
Ação social
Bertolini explica que a ideia por trás disso é uma ideia social, de atender a quem menos tem. “Nosso leite transgênico não é um substituto, mas uma alternativa quando a amamentação não é possível, e mais, é para prevenir doenças e que o leite seja fornecido como um alimento na ação contra a desnutrição e de fornece o alimento com uma vitamina essencial” ilustra o pesquisador.
Assim, ele acredita que exista a possibilidade do leite transgênico ser adicionado à todas as outras ações públicas ou privadas que tenham o objetivo de melhorar a alimentação de parte da população que melhore sua chance de se tornarem cidadãos. O projeto é visto pela equipe não como apenas uma pesquisa para fazer um leite com mais proteínas, mas como uma pesquisa de cunho social. “A questão não é apenas o leite aprovado e consumido, mas que o Brasil seja mais justo e equilibrado, para que não precisemos mais acabar com a diarreia infantil por causas que podem ser solucionadas antes de acontecer” finaliza Bertolini.
Hoje o casal de cabras transgênicos já produz leite que já está sendo usado nas pesquisas, com resultados positivos para a proteína lizosima humana. “A proteína está presente nas cabras em quantidade 400 vezes maior que no leite da mãe, mas a nossa intenção é de chegar a níveis 70% maior com o produto final” descreve Bertolini que informa já ter produzido um clone de cabra no experimento.
Conforme pesquisador, a lizosima vai além de ser mero modulador de intestino. Sim é essencial no combate a diarreia, mas seu espectro é maior, pois age com a prevenção de doenças e as bactérias de forma geral, confere a criança uma maior imunidade, com menores taxas de infecções de ouvido, respiratória e dá uma maior resistência ao organismo. “Neste momento estamos tentando introduzir a substância lactoferrina nos animais e até o final do ano queremos ampliar o rebanho e fazer testes com humanos” projeta Bertolini.
O célebre Bertold Brecht cunhou a frase que “a ciência conhece um único comando: contribuir com a ciência”. Completo o pensamento e digo que também contribui com a vida, mas para a vida.
Fonte:Tribuna do Ceará Matéria pesquisada e adaptada por Tribuna do Nordeste



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